A perversão é outro modo de não querer saber da falta no Outro. Esta modalidade de rejeição é o desmentido. Desmentir é condenar ao esquecimento disfarçando o objeto do qual não se quer nada saber através de um fetiche. O termo de Freud é Verleugnung.
Este é um assunto polêmico porque se pode problematizar a estrutura do desmentido se levar em conta que o recalque e a foraclusão são o direito e o avesso da afirmação primordial.
A língua portuguesa não tem a sorte de permitir o equívoco homofônico que a língua francesa permite e que dá conta precisamente do que se trata na père-version, a versão do pai.
A perversão só realiza uma face do sintoma, a face de gozo, porque o sofrimento está ausente no perverso.
O estudo da perversão¹ deve, de preferência, se interessar pela natureza da pulsão sexual. O senso comum quer impor que o sexo é despertado apenas na puberdade e visa tão somente à reprodução sexual. O estudo das perversões contraria esta opinião dita verdadeira.
Contrariando o mito de Aristófanes² Freud propõe o conceito de bissexualidade. Com este conceito ele se afasta da natureza anatômica do problema, pois por bissexualidade se deve entender não a existência dos dois sexos em uma mesma pessoa³ , porém a existência de um só significante para nomear ambos os gozos, o gozo fálico e o gozo tórico.
A lei econômica mais geral dos impulsos sexuais é a de que para gozar qualquer objeto serve. Isto já se constitui numa diferença entre necessidade e desejo. O objetivo sexual da cópula não deixa de ser acompanhado de outros objetivos sexuais preliminares, tais como tocar e olhar o objeto sexual. O beijo é uma espécie peculiar de prazer preliminar que nos permite conceber claramente o sentido do termo perversão - deslocamento do ato da cópula para outras zonas erógenas que a genital e, sobretudo a preferência por estas. O uso da boca, por exemplo, no ato sexual é uma perversão - felação e cunilíngua. Parece que a repugnância tem aí valor indicial forte, tanto quanto no uso do ânus, para a concepção do que é uma perversão.
O fetichismo4 é uma fantástica solução do problema da falta de um significante no Outro que consiste no desmentido da mesma mediante a ereção de um objeto-significante do falo que falta ao Outro. O desmentido (Verleugnung) se diferencia do recalque (Verdrängung). O primeiro incide, diz Freud, sobre a idéia enquanto o segundo incide sobre o afeto. O segundo é uma significantização do gozo, como é patente na fobia, enquanto o primeiro é uma fetichização do gozo. Enquanto o neurótico confessa a falta de um significante no Outro o perverso a desmente.
O horror da castração faz com que o fetichista erga paradoxalmente um monumento ao falo ausente no Outro, pois o fetiche representa uma aversão ao outro sexo real do qual permanece uma imagem indelével. Assim também o fetichista se defende dotando o Outro da característica que o torna tolerável como objeto sexual.
O caso mais extraordinário de Freud acerca disso é aquele em que um homem escolheu como condição necessária do gozo fetichista o brilho do nariz. Este é um dos mais brilhantes exemplos d’alíngua. “Glanz auf der Nase” era na verdade um vislumbre, “glance at the nose”, do nariz.
A escolha do objeto fetiche assim como a escolha do objeto fóbico obedece às leis do que Freud denomina processo primário e que proponho chamar de processo d’alíngua. Segundo este processo o objeto fetiche é um tomada da última impressão, da derradeira percepção visual subjetiva do suposto falo ausente do Outro.
Quem tem dúvida da existência da falta no Outro (S[%]) deve investigar o fetichismo, para poder avaliar o efeito de susto diante da percepção visual subjetiva, isto é, escópicadesta falta. Este é o único e verdadeiro trouma.
O outro interesse teórico do tema está vinculado ao conceito de estruturas clínicas. A rigor, só existe a neurose e a psicose. A primeira é o retorno do recalque de um fragmento de pulsão e a segunda é o retorno da foraclusão de um pouco de realidade. Dado que o fetichista rejeita a real falta no Outro, o assunto das estruturas clínica se torna mais complexo. Assim, cabe perguntar se o fetichismo, a perversão, é uma neurose, uma psicose ou uma estrutura clínica independente, dado que o fetichismo introduz o problema da divisão subjetiva, o fetiche realiza simultaneamente a afirmação e a negação da falta no Outro, o que se pode notar mais francamente no fetiche de cortar tranças.
Tocar no objeto do gozo sexual é ato imprescindível e só poderia ser considerado perversão se fosse tornado um ato exclusivo. O mesmo se aplica ao olhar. O desejo sexual se desperta no mais das vezes pelo olhar. O uso das roupas tem tudo a ver com o impulso escópico, no sentido de que se trata de esconder, sobretudo as partes mais erógenas do corpo. O impulso escópico é um derivado da curiosidade sexual infantil que pode ser sublimado, por exemplo, nos objetos de arte, objetos que são dados a ver. O prazer de olhar - a escopofilia, no entanto, torna-se perversão nas formas do exibicionismo e do voyeurismo. Aqui, em lugar da repugnância é a vergonha que exerce a função de interdição do impulso escópico.
A mais significativa de todas as perversões, contudo é o sadismo e o masoquismo. Trata-se aqui do componente agressivo do impulso sexual. Neste caso, é a dor que se coloca como índice da interdição deste modo de gozar, ao lado da repugnância e da vergonha. Mais claramente do que no caso das formas da escopofilia, no sado-masoquismo encontramos a ocasião de diferenciar os impulsos perversos em ativo e passivo. Há uma clara conexão entre a crueldade e a sexualidade como se pode notar nas formas sádicas e masoquistas do gozo sexual.
Referências:
ALENCAR, J. de, A pata da gazela.
FREUD, S. , Edição Standard Brasileira (ESB) das Obras Completas, Imago, RJ.
as aberrações sexuais, 1905, v. 7.
uma criança é espancada, 1919, v. 17.
psicogênese de um caso de homossexualismo em uma mulher, 1920, v. 18.
o problema econômico do masoquismo, 1924, v. 19.
fetichismo, 1927, v. 21.
o delírio e o sonho na Gradiva de Jensen.
JENSEN, W. , Gradiva.
LACAN, J. , Aulas do Seminário “O Sintoma”, publicadas in ORNICAR? Nos 6 a 11, Navarin, Paris.
PLATÃO, O Banquete.

Achei interessante esse material que diga-se de passagem está disponível na net..
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