domingo, 23 de outubro de 2011

O machismo segundo a tese de Gikovate presente na obra Falando de Amor


          O machismo é o aspecto mais característico do comportamento masculino em nossa cultura. Ele corresponde a um exagero, na maioria do tempo ridículo, do papel do homem, especialmente quando se relacionando com as mulheres. Porém, aspectos típicos desta atitude aparecem também nas relações entre homens. Do ponto de vista exterior, há maneirismos que imitam o comportamento grosseiro dos marginais e delinqüentes – os modelos exagerados e quase caricaturais dos machões.  Essencialmente os maneirismos e outros procedimentos verbais são confundidos com virilidade, ou seja, são esforços para se mostrarem publicamente competentes para a prática da intimidade sexual.
            A coisa começa por volta dos 7 anos de idade. É o início do chamado período de latência, que se segue ao período edipiano. São complexos e intrincados os eventos, tensões e sofrimentos; ainda difíceis de determinar o grau e a intensidade das frustrações que correspondem, para o menino, a passagem por este período de luta competitiva com o pai pelo amor da mãe. O que parece indiscutível é que há uma certa estimulação por parte dos adultos para o estabelecimento desta situação exageradamente competitiva. A luta é, obviamente, perdida pelo menino. Não é o momento aqui para discutirmos, outra vez, detalhes do conjunto das emoções próprias do período edipiano.(*) O importante é reafirmar mais uma vez que, por frustrações anteriores, se compõe um período entre 7 e 12-13 anos de idade, onde a atitude visível e detectável dos meninos é de total desprezo e desinteresse pelas meninas.

(*) Tratamos destes aspectos mais pormenorizadamente em “Dificuldades do Amor”
MG Editores Associados – S. Paulo.

            As meninas têm seus jogos próprios, com um caráter bastante ameno e relativamente pouco agressivo, onde imitam as tradicionais atitudes e funções da mulher (brincam de casinha, cuidam de suas bonecas como se fossem suas filhas, etc.). Elas são proibidas de participar das atividades masculinas. Quase todas se constituem de jogos essencialmente de tipo competitivo e ricos em violência e agressividade direta – durante um jogo de futebol, por exemplo, a impressão que se tem é de que a atividade competitiva é só pretexto para se criarem situações de briga; há mais discussões, polêmica verbal, rapidamente se encaminhando para um desfecho de agressão física, do que jogo. Os meninos desta idade se constituem em turmas, onde têm que enfrentar, além das tensões internas, brigas e ataques contínuos das outras turmas, sempre constituídas por inimigos. É um clima geral de medo, especialmente para aqueles que se sintam, por qualquer razão, com menos capacidade para enfrentar as brigas e tensões que se exprimam como violência física direta.
            A maioria dos meninos consegue desempenhar razoavelmente este padrão de comportamento exigido, que não se pode mesmo dizer com prioridade de onde vêm, e nem mesmo se corresponde ao anseio da maioria. Da experiência clínica e pessoal, nunca ouvi ninguém contar deste período da vida com alegria e orgulho, apenas. Está sempre associado a situações de medo, de experiências homossexuais bastante constrangedoras, cuja lembrança funciona como um fantasma incômodo. Lembranças de brigas evitadas por causa do medo (de machucar o outro ou de apanhar), associadas a forte sensação de covardia e vergonha. Algumas lembranças de caráter heróico, associadas a façanhas individuais ou do grupo.
            Um bom número deles são mal sucedidos neste modo particular de viver estes anos em nosso meio. São terrivelmente ridicularizados pelos outros. São tratados como seres desprezíveis similares às meninas. Alguns deles se retraem do grupo, se trancam em casa, intimidados. Outros, continuam participando do grupo, no papel de “maricas”, objetos de todo o tipo de chacota e ridicularização, fortemente ameaçados com tentativas homossexuais ativas dos mais fortes sobre eles. Vale a pena concluir já – e a isto voltaremos depois – que se estabelece claramente uma correlação entre competência agressiva e competência sexual. Os mais violentos e capazes de expressar mais livremente sua agressividade serão os mais viris.
            Com a puberdade e início da adolescência (13-17 anos) volta o interesse pelas mulheres. O fato mais marcante desta retomada de importância e significado da menina é que o desprezo rapidamente se transforma em medo. E este é um fato curioso, pois as mulheres se transformam em ameaçadoras não só para a abordagem sexual, mas também para fins de namoro ingênuo. E provável que este medo tenha relação direta com uma sensação de incompetência como macho, que é o que acaba restando em quase todo o mundo como resultado do terrível período de latência. De todas as aproximações, a sexual é a mais temida (além de também desejada) ; é o “pôr-se à prova”, testar-se como homem. Ninguém está preparado para isto. E se fracassarem? É uma tragédia que tem que ser evitada a qualquer custo. E tem que ser evitada para si mesmo e também (num nível de importância comparável) para fins de reputação perante o grupo, cuja importância continua sendo muito grande, como aferidor das características e competências masculinas.
            Não há a menor condição para enfrentar uma intimidade sexual real. O medo é muito maior do que o enorme desejo. A masturbação é a solução. Resolve o desejo, apesar dos sentimentos de culpa de estar tendo um procedimento indigno e de eventuais efeitos maléficos para a saúde física e mental.
            Com o passar do tempo, com o imaginar em fantasias durante a masturbação todas as possibilidades e variáveis da situação sexual objetiva, o brutal medo vai se atenuando. Além do mais, existe uma óbvia e ostensiva pressão do meio – colegas mais velhos, irmãos e principalmente o próprio pai, ou indiretamente os pais – no sentido de que a iniciação sexual se dê o mais rápido possível. Não são raros os pais que se encarregam pessoalmente de introduzir seus filhos a alguma prostituta que eles reputam de confiança para executarem tal tarefa. Tal comportamento dos pais denota, é evidente, uma preocupação com a primeira experiência do seu filho (todos sabem, por introspecção, como um fracasso nesta condição poderia ter enormes repercussões sobre o futuro sexual e como homem, em geral do menino). Mas isto é, também, um importante indicativo das brutais pressões de desempenho sexual a que os meninos estão sujeitos. Há um grande orgulho para a família quando tudo vai bem; e quanto mais precoce for esta experiência, melhor. Isto parece ser indicativo de que se trata de um menino normal. Um dos fantasmas que mais preocupam os pais nesta fase é o de que seus filhos tenham alguma dificuldade nesta área, que teria como desgraça maior a homossexualidade. E sempre difícil saber quanto os pais estão preocupados com o bem estar psicológico dos seus filhos ou quanto estão mesmo é interessados em manter suas posições de educadores e, portanto, suas próprias reputações perante o seu grupo de referência adulto.
            Enfim, o fato é que, num determinado momento, em geral 1 a 3 anos após o início da prática sistemática da mas-turbação, o menino se arma de toda a coragem – muitas vezes ajudado até pelo álcool – e vai tentar preencher as expectativas que todos esperam dele, principalmente ele próprio. Não vai à procura de prazer, do encontro físico como fonte de alegria e enriquecimento. Vai cumprir uma missão. Vai tentar conseguir uma ereção. Uma penetração vaginal. Uma ejaculação em um tempo razoável, que não pode ser nem muito curto, nem muito longo (o início da contagem do tempo é o momento da penetração). Em síntese, vai tentar manter uma relação sexual. O mais comum é que o faça com uma prostituta. Prostituta ou não, será uma mulher qualquer, entendido isto não no sentido moral ou pejorativo, mas sim no sentido literal, isto é, uma mulher indiscriminada, uma pessoa que seja desconhecida para ele, com quem não teve nenhum contato anterior e com quem provavelmente não terá nenhum outro contato. Não é necessário levar em conta nenhuma afinidade intelectual, emocional e nem mesmo física!
            Todo o mundo sabe, e neste sentido foram muito úteis os estudos recentes e sua grande divulgação (infelizmente não tão grande em nosso país) sobre a sexualidade humana, da importância do primeiro encontro sexual para a vida emocional do rapaz. É óbvio que é importante também no caso das meninas, cuja rápida evolução trataremos noutra parte. Apesar disto, tudo continua se passando, para a maioria dos rapa-zes, mais ou menos como foi descrito aqui. O saber das coisas a respeito da vida sexual não determinou nenhuma mudança neste setor, e eu acho bom ressaltar isto. O destino da maioria dos rapazes depende, em boa parte, do que acontecer nesta primeira experiência sexual, que se dá em condições péssimas. Se ele for bem sucedido, ótimo. O fracasso, não raro, especialmente para aqueles mais emotivos e sensíveis, que podem ser mais influídos pelas condições gerais em que se dá a experiência, poderá trazer conseqüências catastróficas para a futura evolução global da personalidade, especialmente com repercussões na área afetiva, além da inibição na vida sexual, onde a coragem para tentar uma outra vez pode só aparecer anos depois.
            Além da enorme pressão do meio dos adultos, existe uma exigência maior ainda por parte do próprio grupo de adolescentes. Aí, os critérios da masculinidade são ainda mais estranhos e exigentes. São tão exigentes que são capazes de determinar uma enorme sensação de incompetência em quase todos os jovens! E isto me parece uma coisa muito importante e nada casual, apesar de que estes aspectos da psicologia são raramente abordados. Em resumo rápido, o ambiente dos adolescentes define a masculinidade nos seguintes termos: é tanto mais macho aquele que tenha um pênis maior (em comprimento e espessura), que for capaz de ejacular um maior número de vezes num menor espaço de tempo (um tempo certo deve existir à ejaculação), que for capaz de ter relações em nada discriminadas quanto às características da parceira, local e comodidades para a prática do ato sexual, e assim por diante. Os que conseguem sucesso nestas condições louvam suas conquistas e isto complica ainda mais os sentimentos dos que não são assim... quase todos. Há ainda outros critérios de segunda ordem de importância, mas também bastante influentes no sentido de ajudarem a compor sentimentos de incompetência: estatura, envergadura do tórax, número de pelos da barba e no corpo, etc.
            Parece-me muito fácil entender que os sentimentos de inferioridade se tornem quase que universais nesta área, pois os critérios a serem preenchidos são tantos e tão absurdos que não há jeito de não fracassar em um ou mais dos seus itens. Não é difícil de entender também que muitos rapazes tentem adiar ao máximo sua primeira “experiência” sexual, por não se sentirem com coragem de enfrentar tão delicada situação. Porém, isto compromete seriamente sua situação e sua reputação perante o grupo de referências (amigos, colegas de escola, parentes próximos da mesma idade). Com freqüência é objeto de incríveis ridicularizações, o que evidentemente agrava ainda mais o já complicado estado de coisas. Muitos tentam salvar as aparências e inventam histórias completas, onde louvam suas experiências inexistentes e suas glórias de macho. Os outros rapazes do grupo ouvem tudo isto com muita admiração – em geral acreditam – e estas mentiras acabam servindo para provocar ainda maiores inseguranças e sentimentos de inferioridade nos outros que estão ouvindo. Como dá facilmente para perceber, os sentimentos negativos vão se transmitindo de um para o outro, e o resultado é um crescente e progressivo comprometimento emocional de todo o mundo. É um absurdo que se repete regularmente em todas as gerações!
            Não é preciso frisar mais que a figura da mulher está completamente perdida como ser humano, com suas emoções, sentimentos e sensibilidades. A preocupação básica é exclusivamente ser bem sucedido na função masculina de ereção e ejaculação no tempo adequado. Há algum interesse pelas meninas recatadas, com as quais poderiam namorar e nunca manterem maiores intimidades sexuais. Porém, mesmo este interesse é superficial. Não há intimidade possível, porque rapazes e moças têm medo um do outro. É como se vivessem em dois mundos completamente diferentes. Para os homens há dois tipos diferentes de mulher: as de amar e namorar com recato, e as que servem para as funções sexuais. É assim que todos são educados. Por esta drástica e radical ruptura entre dois tipos diferentes de abordagem da mulher, muitos homens (em certa medida, todos) pagam mais tarde um terrível tributo, que é a incapacidade sexual em relação às mulheres por eles verdadeiramente respeitadas e valorizadas.
            Conclusão: apesar de ser quase uma figura teórica ou utópica, o macho ideal para os padrões da nossa cultura é um homem alto, de ombros largos, de pênis grande (até há muito tempo ninguém se interessou em saber o que as mulheres pensam disto!) capaz de manter várias relações sexuais seguidas com qualquer mulher, em qualquer situação ambiental, sem medos ou titubeios de espécie alguma, inclusive tudo isto absolutamente independente do seu estado emocional ou de qualquer outra variável subjetiva. Enfim, cria-se o modelo de uma besta. Um animal sem qualquer dose de sensibilidade ou emoção capaz de interferir no desempenho sexual. Sem qualquer preocupação ou respeito pela mulher, exclusiva-mente objeto de prazer, para ele (como vimos anteriormente, nem mesmo isto é absolutamente verdadeiro). Às vezes a preocupação em agradar a mulher aparece, mas ainda de modo secundário e não como manifestação de carinho ou interesse, mas para reforçar ainda mais suas virtudes de macho. Aliás, para ser preciso, é necessário dizer que há mesmo uma certa louvação da capacidade de desprezar as mulheres, e isto aparece de modo bastante claro no tipo de vocabulário usado a respeito pelos rapazes – e mesmo entre homens adultos – quando se referem às mulheres com quem mantiveram qualquer tipo de aproximação sexual.
            As coisas postas nestes termos podem parecer chocantes, ou mesmo uma abordagem que exagera os fatos: mas a verdade é esta. E até hoje as coisas não mudaram em nada. É isso que todo homem – pelo menos durante um bom período de sua vida – sonha em ser. É por comparação com este modelo absurdo, deformado, grosseiro que todos os homens se sentem inferiorizados, incompetentes. É isto que os torna amedrontados diante das mulheres (e talvez diante de várias situações da vida adulta).
            No fim das contas, os homens se sentem inferiores e pequenos exatamente porque têm sensibilidade, emoções, olfato, tato, etc... e portanto, não podem preencher o critério da indiscriminação, e o da capacidade sexual em qualquer estado ou clima emocional. Do mesmo modo, poucos homens se julgam portadores de um pênis de dimensões apropriadas. O estranho e quase inacreditável é que estes critérios da adolescência se perpetuam por longos anos da vida adulta e eu os tenho encontrado mesmo entre os homens mais esclarecidos e cultos.
            Os fracassos sexuais continuam sendo sentidos pelos homens como uma coisa bastante grave, motivo de brutais preocupações, e desencadeantes de freqüentes e fortes crises depressivas. É muito difícil convencer, mesmo as pessoas esclarecidas, de que, do mesmo modo que certas situações da vida subjetiva ou objetiva podem determinar alterações na capacidade de se alimentar ou de dormir, podem interferir também na função sexual. Nada mais lógico e esperado do que existirem fracassos sexuais em certas situações de maior ansiedade. Uma delas, por exemplo, é a do primeiro encontro sexual entre um homem e uma mulher que se valorizam e têm real interesse um pelo outro. O medo de desapontar ou de não ser bem sucedido pode, juntamente com um compreensível constrangimento bilateral, provocar um estado de ansiedade que determine a completa inibição da capacidade sexual do homem. Isto ocorre também com a mulher, mas, por razões óbvias, o problema do homem é manifestado primeiro, porque é mais observável, ainda mais que à mulher sobra sempre o recurso de fingir. Há várias outras situações em que a ansiedade ou o medo ou outros mal-estares, podem provocar inibição sexual no homem. Ou melhor têm que provocar inibição sexual no homem.
            Isto significa que não somos bestas, mas sim animais humanos, sensíveis, portadores de emoções; a sexualidade tem que fazer parte do conjunto das sensações humanas e não ser vivida como uma entidade isolada, estanque, funcionando sempre de modo igual, independentemente do que esteja ocorrendo com o resto do indivíduo. São dignos e humanos aqueles que têm uma sexualidade variável, de desempenho relacionado com a situação objetiva e subjetiva. Enfim, aqueles que levam em conta que a relação sexual envolve mais uma pessoa.
            Já é tempo de se tentar atenuar, pelo menos na cama, o caráter competitivo e de preocupação de desempenho, que todos nós – principalmente os homens – estamos submetidos o dia inteiro no mundo do trabalho. Já é tempo para que a relação sexual entre um homem e uma mulher possa ser vivida como uma importante fonte de prazer e realização para ambos e não como mais uma tarefa (nas pessoas casadas, a ultima do dia!) a ser realizada com eficiência e rigor. É triste constatar que, inversamente, o que está ocorrendo é que as preocupações de desempenho sexual e de eficiência não estão absolutamente diminuindo nos homens e que, isto sim, estão aumentando nas mulheres também.
            O que era importante descobrir e aperfeiçoar em termos de técnicas sexuais e conhecimento de sua fisiologia já foi feito no decurso da década passada, especialmente nos Estados Unidos. Foi um período que desvendou, pela primeira vez, e esclareceu muito sobre importantes dados, mantidos em total desconhecimento até então. E isto se deve ao fato de que nós sempre vivemos numa cultura que lida de uma maneira muito peculiar (mais do que simplesmente preconceituosa, a meu ver) com as coisas do sexo e do amor. Porém, estes novos conhecimentos não precisariam ser transformados em um aumento ainda maior da preocupação de desempenho e eficiência, como me parece que tem ocorrido. São informações úteis, porém que devem ser manuseadas com imaginação, liberdade e amor.
            São saudáveis, humanos, sensíveis e respeitosos os homens que têm fracassos sexuais esporádicos. E as mulheres sabem (ou intuem) disto, que os homens precisam aprender. A experiência do fracasso sexual, apesar do seu caráter brutal e terrivelmente angustiante, é uma sensação básica, porque é a quebra do machismo. É, portanto, o início de uma relação mais digna, mais nivelada, entre um homem e uma mulher. E isto é uma conquista absolutamente original, de significado enorme e totalmente imprevisível.
            Eu quero ainda discutir um pouco alguns aspectos do machismo, que ultrapassam os limites da psicologia normal e mesmo da psicologia. Inicialmente, as relações entre o desenvolvimento da sexualidade masculina e a violência. Já apontei nas páginas anteriores, na descrição do período de latência, como nos meninos a capacidade de agir de um modo agressivo direto (briga), fica sendo uma das manifestações de sua capacidade de macho. Inversamente, o não preenchimento do padrão agressivo-competitivo traz como conseqüência uma forte sensação de fraqueza, covardia e de incompetência como homem, que se estende imediatamente para a área sexual. Quanto mais agressivo e violento em geral for o padrão, maior número de meninos se sentirão muito precocemente incompetentes. E isto pode agravar muito intensamente os temores já inevitáveis das aproximações sexuais esperadas durante o período seguinte, ou seja durante os primeiros anos da adolescência. Acontece que os meninos mais sensíveis e emotivos têm muita dificuldade de lidar com a agressividade. E isto pode ser entendida de várias maneiras. Ou porque, devido à sensibilidade, sejam capazes de se colocar na situação do outro e avaliarem a dor que são capazes de impor ao outro. Ou porque tenham incorporado mais intensamente do que os outros, uma das normas contraditórias do período educacional anterior, qual seja o de que a agressividade é uma coisa feia e inaceitável, do mesmo modo que o sexo (contraditório porque a agressividade das crianças pequenas se tenta reprimir com a agressividade dos adultos sobre eles). Ou porque tenham saído mais machucados do que a média dos meninos do período edipiano anterior e por isso mais inibidos e tímidos. E assim por diante...
                O fato é que, tendo dificuldades com as condutas agressivas, são tachados de maricas, ridicularizados, marginalizados do grupo. São desprezados, como são desprezadas as meninas.
            Seus modos mais delicados (próprios de pessoas sensíveis em geral), seus interesses divergentes dos habituais jogos, tudo é sinal de diferença e indicativo de que algo de muito errado está se passando com o menino. Assim, se ele gostar de música e de leituras em vez de futebol, é um óbvio homossexual, mesmo que só tenha 10 anos de idade. Se interessar por balé, nem se fala. Se não participar das brigas próprias deste período da vida e preferir (ou precisar, por medo) ficar em casa, chamará a atenção dos pais na mesma direção; e estes o estimularão para enfrentar justamente as situações mais difíceis e traumáticas. Nada melhor, nestes casos, do que colocar – à força – o menino numa academia de Judô ou Karatê. E a incompetência obviamente se acentua e se torna mais marcante para o próprio menino, que através da preocupação dos pais, também tem mais um dado para perceber para si mesmo que ele é um ser humano diferente dos outros. Um homossexual.
            E é com este estado subjetivo que ele chega à adolescência. É evidente que não terá coragem de enfrentar um relacionamento sexual com uma mulher. É evidente que o seu relacionamento com os outros meninos será péssimo. Um misto de inveja e de ressentimento. Desenvolve-se uma verdadeira fobia sexual em relação às mulheres. A intensidade do medo é tão grande que provavelmente só imaginar uma situação sexual com uma mulher já provoca todas as reações físicas de pânico. O desejo heterossexual neste clima se extingue. Naturalmente o componente homossexual vai tomando conta do processo mental, indiscutivelmente associado – ao menos em parte – com uma atitude de raiva e hostilidade contra as figuras masculinas. O homossexual, em geral, tem raiva dos homens. Pelas mulheres, após o total desinteresse sexual determinado pelo medo-pânico da situação, indiferença e desatenção. Só se relacionam com certa intimidade entre si. Ainda assim com vários tipos de problemas, a maioria deles relacionados com a precária aceitação da própria homossexualidade, e, é evidente, da homossexualidade no outro.
            Não é minha intenção, por ora, fazer um estudo exaustivo e uma descrição completa e pormenorizada sobre a homossexualidade. Também não quero absolutamente dizer que todos os casos de homossexualidade se expliquem da forma acima. Ela é uma condição ainda absolutamente não bem entendida ou explicada. O que estou tentando é encontrar alguns dados de explicação mais ou menos genéricos que possam ajudar a entender um fenômeno muito bem conhecido, que é o aumento enorme da incidência da homossexualidade em certos momentos da história humana, como é este que estamos vivendo.
            Com o desenvolvimento e sofisticação de uma determinada sociedade, crescem os agrupamentos urbanos. Nas sociedades acidentais, como a nossa atual, cresce a competição entre os homens: as relações humanas se tornam inevitavelmente mais carregadas de violência. O que eu quero sugerir é que há uma correlação provável entre o aumento da violência interpessoal, especialmente na forma como ela se manifesta durante o período infantil de formação, e o aumento da freqüência da homossexualidade em uma determinada cultura. A homossexualidade seria, pelo menos em um grande número de casos, uma manifestação extrema da incapacidade do homem de preencher, nem nos seus requisitos mínimos, os padrões masculinos exigidos. E ela é, em parte, uma condição imposta de fora, pelo meio. Não há muita saída para um menino sensível, pouco agressivo, de modos delicados, com interesses muito diferentes dos habituais e próprios da sociedade em que ele vive. Um bom número deles associa isto a uma definitiva incompetência sexual como macho. Outros conseguem, no processo da adolescência, se salvar desta condição, muitas vezes favorecidos exclusivamente pelo acaso (encontro, por exemplo, de uma moça capaz de ajudá-lo a vencer as terríveis sensações do medo da situação heterossexual).
            Nos Estados Unidos, onde a freqüência da homossexualidade masculina atinge cifras altamente expressivas (provavelmente superiores a 10% da população; são apenas estimativas, porque um bom número de homossexuais, em virtude de posições profissionais que ocupam, muitas vezes vivem esta condição de uma maneira absolutamente clandestina), a Associação Psiquiátrica Americana passou a considerar, desde há alguns anos, esta condição como fora da categoria de patologia psiquiátrica. Em verdade, não havia outra solução. Ou se aceita a homossexualidade como sendo uma variação possível da normalidade humana, ou se tem que incriminar as sociedades acidentais, doentes, como as responsáveis por ela, que, pelos números e pelo seu caráter episódico e cíclico, é mais do domínio da ordem social e política do que da psicologia.
            É ao redor deste momento difícil, em que as fronteiras da psicologia esbarram com aspectos básicos da organização social humana, que eu ainda quero fazer mais algumas observações acerca do machismo. É evidente, pelo que foi dito antes, que a homossexualidade é conseqüência extrema do não preenchimento do modelo cultural do macho. Já disse também que praticamente ninguém preenche razoavelmente (segundo os critérios individuais e interiores) este modelo. Que a conseqüência disto é um sentimento de inferioridade universal – este está presente também em todas as mulheres, por razões diferentes – presente em proporções diversas em cada um de nós, também em conseqüência de outras variáveis, que definem as condições de sucesso ou fracasso na nossa cultura. O sentimento de inferioridade tem sobre a estrutura global da personalidade várias influências. Apesar de ter suas origens profundamente vinculadas à sexualidade e às relações desta com a agressividade, se estende para todas as áreas do processo psíquico. Influi decisivamente sobre a razão. O indivíduo passa a não confiar em nada que nasça de dentro de si mesmo. Quanto mais original forem seus conceitos e suas idéias, mais medo tem delas. Como pode acreditar em si mesmo se está tudo contaminado com uma profunda noção de incompetência, de fraqueza, de insuficiência? O jeito é se guiar pelos modelos externos, propostos pela cultura. Fazer como todo o mundo faz. Agir e pensar (até mesmo pensar) como parece que os outros fazem. O estilo de viver deverá ser o de todos. As ambições, as metas, as formas de alcançá-las, tudo.
            Por não se poder acreditar no modo próprio de encarar a vida é que não se pode fazer, na prática, as tentativas de inovar nada. Os sonhos são bobagens que têm que ser deixados de lado o mais breve possível. O período de revolta contra as óbvias aberrações da cultura deverá ter curta duração, e em breve chega a maturidade onde tudo se apazigua. A cultura tem uma atitude complacente e condescendente com os seus adolescentes rebeldes. É tudo efêmero. Existem e são bem conhecidos os mecanismos para atenuar estas rebeliões; elas correspondem, dizem, apenas a insatisfações psicológicas pessoais, especialmente na área afetiva. Logo os rapazes e moças se apaixonam pelos seus companheiros certos, constituem novas famílias, e tudo se normaliza. O trabalho e as necessidades materiais de sobrevivência tornam conta de toda a atenção do jovem casal e eles param de se preocupar com os assuntos sociais e só se interessam pela sua própria vida. E isto quer dizer que se atingiu, finalmente à maturidade.
            O fato curioso é que pelo final da adolescência, isto é, após a solução da problemática sexual básica, com sucesso na capacidade de manter relações sexuais normais apesar de todos os obstáculos e dificuldades (a verdade é que a maioria consegue se sair razoavelmente bem deste massacre), os jovens estão bastante mais confiantes em si mesmos e em geral isto corresponde a um período muito rico de interesses sociais mais amplos, quando a situação permite e cria condições para que isto ocorra. Rapidamente aparecem, para a maioria dos rapazes e moças, os característicos encontros sentimentais, que descrevemos depois, o que parece novamente reforçar todos os sistemas dos sentimentos de inferioridade, acovardando novamente a todos, criando uma tendência quase definitiva para a perfeita acomodação às regras da sociedade, tal como ela é. A rebelião da adolescência seria um pequeno hiato, onde os jovens, encorajados por seus sucessos em lidar com suas complicadas dificuldades na área da sexualidade, tentam expressar suas idéias mais livremente, tentam atuar para compor o que eles consideram ser um mundo mais justo. Mas, evidentemente, esta atitude tem que passar logo, e o enquadramento será feito através dos futuros envolvimentos amorosos.
            E assim vêm se sucedendo gerações intermináveis de pessoas insatisfeitas, acomodadas em suas infelizes condições, mas achando que é assim mesmo que tem que ser tudo. A religião, antes, os consolava. A psicologia, com suas explicações e com seus conceitos de maturidade, neurose, frustrações, traumas, etc., os tranqüiliza e lhes dá a certeza de que está tudo indo como pode e como tem que ser. 



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