O
nome foi usado para as recentes tentativas de emancipação e igualdade da mulher
em relação ao homem, em sociedades evidentemente governadas pelos homens desde
sempre. Para se entender alguns aspectos do comportamento feminino habitual e
presente até hoje é muito importante levar em conta que a posição da mulher nas
sociedades acidentais era, até há menos de 30 anos, de total inferioridade.
Certos procedimentos tipicamente femininos como, por exemplo, as tentativas
sutis de dominação dos homens através de táticas de sedução física, ou de uso
de sua fragilidade para despertar sentimentos de pena e de culpa, são defesas
necessárias para que a situação de dominação e submissão total não ficasse tão
insuportável.
Talvez uma das características biológicas
que mais influi no desenvolvimento da espécie humana e suas sofisticadas
estruturas sociais, seja a prolongada dependência física das crianças em
relação aos adultos significativos, em particular, a mãe. Em todos os outros
mamíferos, a cria se desenvolve o suficiente para poder se alimentar por conta
própria em poucos meses. Ao período de lactação, se segue o da capacidade de se
alimentar por si só. A cria se distancia definitivamente de sua mãe, que nem
mesmo mais a reconhece entre os da espécie. A maioria dos mamíferos têm cria
que praticamente nasce andando; enxerga perfeitamente em poucos dias. A criança
senta-se aos 6 meses, anda com um ano. Torna-se fisicamente independente depois
de 10 – 15 anos!
Quando uma fêmea dos outros
mamíferos tem filhos, os seus anteriores já estão totalmente crescidos e
perdidos na multidão da espécie. É só cuidar e amamentar os filhos atuais por
poucos meses e está livre de novo da cria. Como os filhotes nascem já bem
diferenciados do ponto de vista neurológico (correspondente à espécie), os
cuidados, além de tudo, são relativamente simples. Pelo menos, quando
comparamos com os cuidados necessários para se manter uma criança em boas condições
de saúde e higiene.
Em condições de vida selvagem, uma
mulher aos 25 anos de idade já teria tido vários filhos, cujas idades variariam
de meses até 10 anos. Todos ainda, de certa forma dependentes dela. Talvez os
maiores a pudessem ajudar um pouco. Mas essencialmente ainda precisariam de
cuidados. Estaria amamentando um filho (ou mais) ; não é impossível que
estivesse grávida de outro. É natural que sua condição física estivesse
comprometida nesta condição. Já em condições normais, a fêmea da espécie humana
é sensivelmente mais fraca fisicamente do que o macho. Grávida ou amamentando,
mais ainda. Não tem condições para cuidar da cria e ainda buscar alimentos para
si e para os mais velhos.
Diferentemente das outras fêmeas dos
mamíferos, a mulher precisava de um homem para ajudá-la na tarefa de cuidar e
de alimentar a prole. A figura do pai, solidamente vinculada à cria, era uma
necessidade essencial para sobrevivência. É evidente, desde logo, que isto
tenha custado muito caro às mulheres. Que elas não tinham outro jeito senão se
submeter às exigências masculinas. Que elas tenham aprendido compensar essa
submissão, para se salvarem, pelo menos parcialmente, desta situação muito
difícil e penosa.
Qualquer tipo de organização social,
mesmo as mais primitivas, deveria, portanto, se compor levando em conta a
necessidade da existência da figura paterna. O casamento, união conjugal
estável de um homem e uma mulher, era um requisito básico para a sobrevivência
da espécie. Ou algum outro tipo de organização que impusesse aos homens a
obrigação de trazer alimentos para as crianças e às mulheres a de cuidar delas,
amamentá-las pelo tempo necessário, etc. É claro que era preciso garantias de
paternidade. Era preciso que cada mulher se ligasse sexualmente a apenas um
homem. Os homens não aceitariam alimentar filhos que eles não tivessem certeza
que fossem seus. Era necessário que se compusesse um certo código onde as
regras da união de homens e mulheres garantissem que a cada homem
correspondesse uma mulher.
Ou melhor, que a cada mulher
correspondesse um homem.
Nas organizações sociais mais bem
sucedidas, provavelmente se encontraram os arranjos mais satisfatórios para resolver
este problema. Outro dado básico que resulta disto tudo, é que a união
homem-mulher não se deu inicialmente como conseqüência de um envolvimento
amoroso, expressão pura de simpatias recíprocas, tanto no plano físico como
intelectual. É claro que se tratavam de uniões por necessidade. Mais
necessidade do que tudo. Não era conveniência; era sobrevivência. A união
deveria durar a vida toda, pois era o tempo necessário para que todas as
crianças (até há pouco tempo, muitas) crescessem e se tornassem independentes.
Aí, os pais já estavam velhos; a situação de sustento deveria se inverter. Ou
seja, os filhos é que deveriam ter as obrigações de sustento dos seus pais, já
sem condições para o trabalho.
A descrição das relações familiares
que eu fiz até agora foram intencionalmente desordenadas no tempo. Estava
falando ao mesmo tempo das tribos primitivas, ao mesmo tempo do que ainda
ocorre em nosso país com a grande maioria de sua população mais pobre. Era
válido para todo o mundo ocidental (praticamente) até há poucas décadas. A
situação da relação homem-mulher só começou a se modificar há muito poucos
anos, e ainda assim só nos países desenvolvidos ou para pequenas minorias nos
outros. A maioria de nós perdeu a noção de que estas coisas sejam tão recentes
(e mesmo atuais nas classes sociais mais baixas). Desde sempre, ouvimos falar
no casamento como uma decorrência do amor entre um rapaz e uma moça que se
escolheram livremente. Porém, isto não foi sempre assim. Os casamentos por
interesses de família predominaram durante o século passado, e há alguns povos
que procedem assim até hoje. Mesmo nas classes sociais mais esclarecidas do
mundo ocidental de hoje existem restrições familiares à livre escolha dos
futuros cônjuges. Se aceita o amor como fator determinante da escolha, mas não
como único. Um rapaz branco não terá o apoio de sua família se quiser se casar
com uma moça preta. Uma moça judia de hoje poderá se casar por amor; porém, o
rapaz deve ser também judeu. E assim por diante. Há resíduos claros das formas
anteriores de união, baseadas em complexas necessidades de sobrevivência,
mescladas com mais intrincados ainda, esquemas de interesses das famílias.
A situação de total dependência das
mulheres, a seus filhos e seus maridos começou a mudar nas últimas décadas, em
virtude das mudanças básicas que têm ocorrido nos meios de produção de riqueza
e, portanto, das crescentes possibilidades de trabalho feminino. Este depende
em boa parte de um crescente número de atividades onde a força física se torna
dispensável. No mundo desenvolvido, a maioria das pessoas exerce atividades
relacionadas com prestação de serviços em geral sem relação com a atividade muscular.
Há portanto, igualdade de condições objetivas para o trabalho das mulheres.
Outro dado fundamental que modificou muito a situação das mulheres foi o
aprimoramento dos recursos anticoncepcionais. Agora, elas podem ter tantos
filhos quantos quiserem, na época da vida que acharem conveniente. Podem mesmo
optar por não terem filhos. E isto modifica tudo.
Se tiverem uma atividade
profissional razoavelmente bem remunerada as mulheres podem, hoje, ter filhos
sem depender de um homem para o sustento dela e da criança. Neste sentido, pela
primeira vez a fêmea humana se assemelha as fêmeas dos outros mamíferos; se
tornou – é claro que ainda são poucas as mulheres que têm esta condição –
independente do macho para os cuidados e alimentação de sua cria. E isto obviamente
muda tudo. As características das relações homem-mulher podem se modificar, mas
só agora. E é exatamente neste momento da história humana que aparecem os
movimentos de emancipação da mulher. É uma tentativa, pelo menos inicialmente,
de esclarecer homens e mulheres que as coisas como vinham se passando entre
eles não tinham mais sentido. É claro, também, que o feminismo era um movimento
de elites. As generalizações de seus conceitos é de absoluta ingenuidade.
Aliás, falar em feminismo num país como o nosso é sempre temeridade. Uma das
características também muito habituais no mundo atual é a chegada de certas
informações vindas de algum lugar do mundo onde as coisas já sejam diferentes,
para outros, de condições objetivas bastante diferentes. Os meios de informação
são imediatos. As coisas se propagam muito rapidamente, mas, às vezes, chegam
em certos lugares em momentos muito pouco oportunos. O feminismo, ou as
tentativas de mudar as características das relações familiares, são do
interesse apenas de uma minoria, porém, de uma minoria muito influente. E,
apesar de tudo, influi também nas camadas mais baixas, pelo menos nos grandes
centros urbanos. E isto ajuda a complicar ainda mais a situação: mulheres que
são incapazes de uma atividade profissional independente exigem de seus maridos
comporta-mentos compatíveis com a nova situação da mulher, que ela não tem, e assim
por diante.
Acho que vale a pena esclarecer este
último aspecto agora. A rigor, a igualdade de condições das mulheres em relação
aos homens só tem sentido e se justifica plenamente desde que haja igualdade de
responsabilidades. É evidente que nem sempre as coisas têm ocorrido deste modo.
Porém, a expectativa da igualdade de direitos é uma preocupação mais rápida e
insistente na cabeça das mulheres do que o assumir suas posições e atividades
no mundo do trabalho e da competição. Os homens, pressionados pela maciça
insistência de suas mulheres e influídos pelas informações que chegam a todo
instante através de todos os meios de comunicação, concordam em que elas tenham
condições as melhores possíveis. O resultado é que a posição das mulheres de
classe média entre nós é, ainda que aparente, melhor que a dos seus maridos.
Estes trabalham o tempo todo. Elas são cercadas de enormes comodidades que as
permitem evitar quase toda atividade doméstica e mesmo dos cuidados com os
poucos filhos do casal. A conseqüência, que poucas mulheres percebem é uma
enorme sensação final de inutilidade. E isto não é bom de se sentir. Há um
vazio e uma insatisfação crescentes, que serão novamente abordados noutro
lugar.
Um número crescente de mulheres, no
mundo inteiro, procuram encontrar uma situação mais apropriada. Procuram
atividades profissionais que as tornem realmente em igualdade de condições com
os homens. E, aí, elas se vêem obrigadas a participar do mundo competitivo há
muitos séculos dominado pelos homens. Competem com os homens em atividades até
há pouco tempo privilégio masculino, em uma época em que a oferta de trabalho
nem sempre é muito grande. Competem com quem está mais habituado a competir.
Enquanto os meninos passam seu período de latência em brigas e disputas
contínuas, as meninas brincam de casinha e de outras atividades que imitam as
funções femininas tradicionais. O mais comum é que elas não sejam tão bem
sucedidas quanto os homens neste mundo, que tiveram que incorporar, sem terem
tido a alternativa de modificar, pelo menos parcialmente, as regras do jogo.
Al‘,ás, é bom dizer de novo que a grande maioria dos homens também são mal
sucedidos no mundo competitivo. Quase todos exercem atividades absolutamente
desinteressantes, de caráter mecânico e absolutamente alienadas. É claro, que
as mulheres, ao imaginarem sua entrada no mundo do trabalho, não se identificam
com este contingente majoritário de homens. Elas pretendem uma atividade
altamente diferenciada, com boa remuneração, atuação criativa, e, se possível,
capaz de trazer uma boa dose de prestígio. E, em geral, ficam muito frustradas
quando percebem que a coisa não é bem assim, pois é raro para todo o mundo, homens
e mulheres.
O meio de trabalho como existe é
hostil e frustrador. As mulheres sempre o idealizaram, porque não tinham acesso
a ele, e porque através dele vislumbravam sua libertação da condição escrava. E
isto é verdade: porém, se compõe uma nova escravidão. A escravidão dos homens.
E, infelizmente, homens e mulheres ainda não conseguiram muita coisa na
verdadeira emancipação de toda a espécie humana. A mulher estava escravizada ao
homem. Este à mulher. E ambos...
É desnecessário falar muito sobre a
negação sistemática que foi feita da condição tradicional da mulher, e em
particular dos habituais trabalhos domésticos. Só quero ressaltar mais uma vez
que eles não são em nada piores do que a maioria dos trabalhos masculinos. Nas
fábricas ou na lavoura, a coisa não é melhor. Também não vou me estender agora
sobre o agravamento dos aspectos competitivos da relação amorosa entre homens e
mulheres que estas coisas novas trouxeram. O fato é que as mulheres tinham uma
expectativa do feminismo. Achavam que, finalmente, teriam uma boa condição de
viver e de serem livres. Enganaram-se; ou melhor, frustraram-se. Passaram a
padecer de maiores e mais complexas contradições, das quais ainda não há
indícios de que estejam conseguindo se livrar. E isto repercute na relação
amorosa de um modo ainda mais negativo do que as relações tradicionais. O
resultado essencial de tudo isto é que o feminismo trouxe, ao menos por
enquanto, piores dias para as mulheres; e evidente-mente também para os homens.
Agravaram-se as insatisfações. Perderam a capacidade de serem mulheres e de
realizarem com alguma alegria e com algum significado suas tradicionais
funções; não conseguiram – salvo raras exceções – se realizar de um modo mais
completo no mundo competitivo do trabalho, até há pouco “privilégio”
exclusivamente masculino.
Para se poder entender adequadamente
os determinantes básicos da psicologia da mulher, como ela é formada em nossa
cultura, temos que levar em conta essencialmente a dependência dela em relação
ao homem, determinada por sua capa-cidade – biológica – de cuidar e alimentar
seus filhos. É tudo orientado no sentido de se formar personalidades adaptadas
a esta condição de dependência. No sentido das concessões à liberdade
individual que devem ser feitas para que o homem a aceite. No sentido de se
compor o sutil instrumental de dominação indireta do homem, a serviço tanto de
aliviar a insegurança e o medo de ser abandonada por ele – tragédia maior –
como para atenuar a humilhação da dominação e controle unilateral. Penso que
este aspecto é fundamental para o entendimento das mulheres; mas acho também
que foi muito pouco explorado. Muita coisa se explica e se esclarece se
partirmos deste dado como sendo o primeiro. Vejamos...
O desenvolvimento da sexualidade da
menina é todo dirigido no sentido de se reprimir ao máximo qualquer
manifestação nesta área. E isto acontece também com os meninos. Porém, durante
a puberdade, as coisas assumem um caráter absolutamente divergente. A menina
deve permanecer total-mente recatada : não deve mais ser absolutamente
desinteressada, como até há pouco tempo. Mas, a virgindade ainda continua sendo
uma coisa muito importante, que deve ser preservada a qualquer custo. Os
rapazes, devido às suas inseguranças, continuam preferindo as meninas virgens.
Estas dirigem suas energias fundamentais para o encontro de um rapaz com quem
possam se casar e com quem estabelecerão uma condição de dependência grande,
tanto no plano econômico como no emocional. E este ainda é o sonho maior de
quase todas as moças.
O problema da sexualidade na menina
é, evidentemente, mais complexo. Um dado fundamental, também pouco citado, é o
de que devem se manter o mais possível recatadas, e ao mesmo tempo assumir uma
atitude de maior capacidade possível de sedução e de ser atraente para os
homens! E isto é uma brutal contradição. A imagem mostrada deve ser da maior
sensualidade possível, e o comportamento do maior recato. Não é difícil
compreender que este procedimento muito típico complica terrivelmente a compreensão
das mulheres por parte dos homens. Desorientando-os, confundindo-os,
irritando-os e fascinando-os. E esta é uma das armas femininas fundamentais.
Aparecer muito atraente e não se entregar é, de uma certa forma, ter um
controle do homem. É tudo muito triste, porém ao mesmo tempo necessário,
levando em conta a enorme desvantagem da condição feminina tradicional. O que
infelizmente ocorre é que as coisas estão bastante diferentes hoje em dia, a
situação de dominação masculina está até em certos aspectos invertida, e as
mulheres, mais do que nunca continuam usando estes tipos de recurso. E isto
complica tudo entre homens e mulheres; e não é sem razão que os relacionamentos
amorosos estejam tão complicados.
A premissa básica é sempre a mesma:
manter um homem sempre perto, para garantir a sobrevivência. Fazer as
concessões necessárias para que isto se perpetue. Essencialmente, manter o
recato sexual, a virgindade, até o casamento. E também manter este estranho
equilíbrio entre o recato e a manifestação da sensualidade. Deverá, portanto,
quando adolescente, ser muito vaidosa, cuidar das formas do seu corpo, usar
roupas o mais possível atraentes. Na hora da intimidade, ter apenas um
interesse relativo; conseguir manter a intimidade em níveis aceitáveis (o menino
deverá tentar o máximo a maior intimidade física possível; é o seu papel), para
que possa ser uma pessoa confiável, ou seja, capaz de não deter-minar muitas
inseguranças no seu futuro marido, que precisa de todas as garantias de
fidelidade (antigamente garantias de paternidade).
A terrível repressão da sexualidade,
que se prolonga também de um modo ainda mais acentuado durante a puberdade,
provoca enormes sentimentos de inferioridade e principalmente sentimentos de
culpa. Estes, em virtude do fato de que a sexualidade é mais intensa do que o
esperado pelo meio. Por exemplo, a masturbação durante a adolescência é sentida
como muito mais criminosa pela menina do que pelo menino. As fantasias sexuais
existem quase continuamente. Elas vêm misturadas com as fantasias amorosas, que
apaziguam parcialmente os sentimentos de culpa. Não existe, como nos meninos,
um conjunto de experiências sexuais durante a adolescência que possam atenuar
os sentimentos de inferioridade, compostos da mesma forma que eles durante os anos
da infância. E sentimentos de inferioridade e culpa geram uma enorme
insegurança. E a insegurança determina sempre uma tendência a se seguirem os
modelos ma!s convencionais de comportamento propostos por uma determinada
cultura. E uma das características do modelo feminino no nosso meio é a
fragilidade. A menina deve ser meiga, frágil, indefesa. Ela tem que ser
protegida por um homem. E aí temos mais uma destas perigosas armas femininas.
Através de sua incapacidade para realizar quase todas as atividades da vida
adulta, ela mostra continuamente ao homem o quanto ele é imprescindível em sua
vida, como sem ele ela não teria condições de sobrevivência. E o homem acredita
nisto, sente-se mais responsável ainda. E gosta muito desta condição que atenua
ainda suas inseguranças. E se deixa escravizar pela mulher, parcialmente pelo
menos. Esta continua cada vez mais insegura e incapaz; ele cada vez mais
comprometido e obrigado. Ela cada vez mais sem responsabilidades profissionais
ou de sobrevivência; ele cada vez mais sobrecarregada.
Outro aspecto muito comum nas
mulheres é um desinteresse geral por quase todas as coisas. E isto me parece
fortemente relacionado a todo o processo repressivo a que ela tem que se
submeter para que possa aceitar com mais serenidade e como necessidade a
relação de dominação do homem. Apesar de todos os truques femininos que atenuam
a humilhação da condição, a dominação básica final é a do homem, na maioria dos
casos. O interesse maior das mulheres é a sobrevivência. Suas preocupações maiores
são as materiais. A segurança delas e dos filhos.
O feminismo trouxe consigo a
consciência da dominação masculina, no momento em que a relação
dominador-dominado passou, pela primeira vez, a ser questionável. O modelo
tradicional da relação familiar pôde ser questionado. Mas isto implica em
profundas e radicais mudanças nos processos de educação de rapazes e moças. E
estas modificações ainda não se deram, pelo menos para a maioria. A rebelião
das mulheres se fez contra os homens. Como se estes fossem seus inimigos. Os
homens estavam envolvidos no mesmo tipo de condição de vinculação compulsória
e, portanto, igualmente escravizados. Não há inimigos. Criou-se uma situação
nova, sem paralelo na história do ser humano: o controle do número de filhos e a
escolha da época em que estes vão nascer, aliados a mudanças fundamentais no
tipo de trabalho criou a possibilidade das relações homem-mulher se tornarem
menos compulsórias, menos escravizastes para ambos. E parece que as pessoas
ainda não entenderam as coisas nestes termos.
As contradições se agravaram em vez
de se atenuarem; os antigos artifícios femininos de dominação ainda não foram
abandonados e as mulheres já obtiveram uma condição objetiva bastante diferente
da de antigamente. A posição dos homens neste conjunto é ruim; as mulheres se
aproveitam deste período de transição para continuarem com seus antigos
privilégios e obterem os novos, até há pouco apenas masculinos.
O período que vivemos é de
transição. E crítico e difícil. As pessoas estão muito perdidas, pois ainda não
sabem se orientar e se compor diante da nova realidade, que é essencialmente a
perda do caráter compulsório da relação homem-mulher como sistema básico para a
sobrevivência da espécie. A nova geração de mulheres, capaz de rever as posições
femininas tradicionais ainda está sendo educada pelas mulheres atuais. Estas,
estão em conflito entre suas novas ambições de sucesso no mundo competitivo do
trabalho e suas inseguranças derivadas do próprio processo de educação à qual
foram submetidas. Estão profundamente infelizes e desajustadas. Já não sentem
tanto apenas o encantamento pela condição feminina. Não conseguiram a
satisfação que imaginaram quando chegaram ao mundo masculino do trabalho.
Algumas já perceberam que a saída não é a renúncia à condição de ser mulher,
mas outras ainda não. O que elas podem mostrar às suas filhas'? O caótico
estado de suas almas? Os seus sonhos não realizados? Não sei. O que eu sei é
que a real evolução e a verdadeira mudança é mais lenta do que se pode perceber
à primeira vista.

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