Introdução
Pretendemos neste trabalho comentar sobre a passagem do mito à filosofia e a
participação que a astronomia tem neste processo, tendo em vista que os
primeiros filósofos eram voltados à natureza ou a physis como veremos. Para
isto começamos esclarecendo o que vem a ser o chamado mythos. Ilustramos com
alguns exemplos de mitos da criação do mundo. Lembramos que alguns permanecem
nos dias de hoje. Damos alguns exemplos de corpos celestes que tiveram seus
nomes oriundos nos diversos mitos da antiguidade. Distinguimos cosmogonia de
cosmologia e mito de filosofia. Mostramos como surge a filosofia, em que
condições históricas e quais são os fatores determinantes para a sua origem. E
quais são as características deste pensamento filosófico. Comentamos sobre o
legado que os chamados pré-socráticos deixam para a cosmologia e a astronomia
não só na modernidade como na contemporaneidade.
O mito e a cosmogonia
Mito segundo o Dicionário básico de filosofia de Marcondes e Japiassú (2006) é
uma:
Narrativa lendária, pertencente à tradição cultural de um povo, que explica
através do apelo ao sobrenatural, ao divino e ao misterioso, a origem do
universo, o funcionamento da natureza e a origem e os valores básicos do
próprio povo. Ex.: o mito de Ísis e Osíris, o mito de prometeu etc. O
surgimento do pensamento filosófico-científico na Grécia antiga (séc. VI a.C.)
é visto como uma ruptura com o pensamento mítico, já que a realidade passa a
ser explicada a partir da consideração da natureza pela própria, a qual pode
ser conhecida racionalmente pelo homem, podendo essa explicação ser objeto de
crítica e reformulação; daí a oposição tradicional entre mito e logos. (p.189).
Vamos portanto percorrer neste trabalho, a passagem deste mito à filosofia e
vamos o quanto for possível e pertinente mencionar uma configuração do
surgimento da ciência e da astronomia científica ou cosmologia que se difere da
cosmogonia, como veremos neste processo.
Antes podíamos dizer que o “conhecimento” estava com todo o povo, pois o mito
“pairava no ar”, fazia parte do povo e o mito era o “conhecimento”. Ele era
passado de geração em geração de forma oral. Desta maneira não se exigia muito,
“bastava ouvir”, para captar o mito, o mito era componente deste povo.
Mas o que vem a ser esse mito? O termo grego mythos ‘’significa um tipo
bastante especial de discurso, o discurso fictício ou imaginário, sendo por
vezes até mesmo sinônimo de “mentira”.’’ Como diz Marcondes (2005, p.20).
Portanto este discurso difere-se do discurso do logos como mencionado, assim
como veremos mais à frente.
Poetas como Homero, com a Ilíada e a Odisséia (séc. IX a.C.), e Hesíodo (séc.
VIII a.C.), com a Teogonia, foram indivíduos como diz Marcondes, “que
registraram poeticamente lendas recolhidas das tradições dos diversos povos que
sucessivamente ocuparam a Grécia desde o período arcaico (c. 1500 a.C.)”.
(p.20).
Talvez, quando o homem começa a utilizar-se do mito para, de certa forma,
buscar respostas a diversas perguntas que certamente os questionavam, já estava
procurando uma explicação para o que ocorria na natureza, por exemplo. O mito
foi assim um inicio de “caça” por algumas respostas (para usarmos um termo
pertinente à época). O que de certa maneira gostaríamos de chamar de: o embrião
da ciência. Mas evidentemente que não tem nada a ver com a ciência como vamos
conhecê-la posteriormente. Pois se difere em vários fatores, um deles é o
investigativo, e como as explicações são dadas, ou seja o discurso que os
constituem.
Enquanto que no mito o discurso pressupõe a adesão e a aceitação dos indivíduos
que não o questionam, e assim ele pode ser dado sem fundamentação, não se
presta à crítica nem à correção. Ao contrário, para os pensamentos
filosófico-científicos, precisamos de uma lógica, uma coerência, é facultada à
observação empírica, pode se criticar e corrigir eventuais desacertos. Mas o
fato de não ser questionado, e de não ter uma lógica não impediu que fosse
passado de geração em geração milhares de mitos, tal foi e é a força do mito.
Os mitos de criação, por exemplo são inúmeros. Vários povos do passado, tinham
os seus particulares, muitos eram conflitantes, outros com algumas afinidades
entre si. Conforme exemplifica Vieira (2002):
Para os Sumérios o universo fora criado pela união de Anu (deus do Céu) e Ki
(Terra) e dessa união surgiram o Sol, a Lua, os planetas e todas as formas de
vida. Encontramos a mesma mitologia na Grécia (união de Urano, deus do Céu, e
Gaia, a Terra), no Egito (união de Nut, deusa do Céu, com Keb, Terra). O
Centauro, Órion e Hércules imaginados pelos gregos foram importados dos sumérios
que os conheciam como Enkiru, Gilgamesh e Marduk, respectivamente. (p.15).
Mas o interessante é que uma grande parte deles, se não a maioria, tinha uma
certa conexão cronológica, uma seqüência bem definida, uma causalidade, embora
mítica. Mas seria natural que esses povos, sem muitos ferramentais intelectuais
disponíveis, buscassem na imaginação o seu apoio. É interessante observar que
alguns destes relatos têm até fundamentação cronológica e científica apurada
posteriormente. Não vamos aqui, tomar partido nem dar opiniões a este respeito,
pois muitas destas questões estão no magistério da fé.
De todos os relatos da criação, a mais conhecida no ocidente é sem dúvida a do
Gênesis da Bíblia Judaico-Cristã como comenta Cherman (2000):
O mecanismo criador é o próprio Deus onipotente, que está além do Universo e o
contém. “No princípio era o Nada e Deus disse ‘faça-se a luz!’ e fez-se a luz.”
Esta idéia tem sua primeira semente no zoroastrismo (talvez a primeira religião
a adorar um deus único) e sua figura de Aúra-Mazda, o sábio senhor. (p.20).
Poderíamos citar diretamente da Bíblia de Jerusalém no Gênesis, capítulo 1º, o
início deste relato da criação:
1 No princípio, Deus criou o céu e a terra. 2 Ora, a terra estava vazia e vaga,
as trevas cobriam o abismo, e um vento de Deus pairava sobre as águas.
3 Deus disse: “Haja luz” e houve luz. 4 Deus viu que a luz era boa, e Deus
separou a luz e as trevas. 5 Deus chamou à luz “dia” e às trevas “noite”. Houve
uma tarde e uma manha: primeiro dia. (p.31).
Como vimos, antigas tradições míticas de nossos ancestrais nos foram
transmitidas, e muitas ainda fazem parte de nossa cultura. Outras deram nomes a
“corpos celestes” como: estrelas, constelações, planetas, nebulosas, galáxias,
faixa luminosa no céu, etc. Estas situações, cenas que representavam suas
lendas, deuses e heróis, batalhas, entre outras, ajudaram nossos ascendentes a
memorizar suas estórias e histórias. Os ajudaram a se locomover sem se perder
guiados pelas estrelas e constelações. Os apoiaram na identificação da estação
do ano em que se encontravam, e sabiam quando viria a próxima e qual seria.
Sabiam quando era a época das enchentes dos rios. Quando era época de plantar e
de colher, etc.
Alguns nomes dados a estes “corpos celestes” merecem aqui referência a título
de ilustração, como por exemplo a Via-Láctea (não confundir com a nossa galáxia
local, também chamada de Via-Láctea). Como diz Vieira (2002) é:
Uma larga faixa luminosa que se vê a olho nu nas noites de céu estrelado.
Segundo a mitologia grega, originou-se do leite jorrado dos seios de Juno,
quando esta amamentou Hércules. Também para a mitologia grega era através da
Via-láctea que se chegava ao Olimpo, ficando à direita e à esquerda as
habitações dos deuses mais poderosos. É também por onde os heróis entram nos
céus. (p.29).
Outro exemplo interessante, de nomes dados a estes “corpos celestes” seria uma
constelação, que de alguma forma faz referência ao nosso trabalho, pois cita o
amor pela astronomia. Como estamos falando da passagem do mito à filosofia
enfocando o caso da astronomia, não poderíamos deixar de falar de Órion.
Segundo Vieira (2002):
Órion – Orion. É uma constelação muito antiga. Na Suméria representava o herói
Gilgamesh. Na mitologia grega tomou o nome do filho de Hirieu. Tornou-se
célebre por seu amor à Astronomia e pelo seu gosto à caça. Diana, a quem ele
ousara desafiar, enviou à Terra um escorpião, cuja picada matou Órion.
Escorpião e Órion foram, então, transformados em constelações. (p.28).
Outros mitos fazem alusão ao Sol, à Terra, à Lua e aos diversos planetas
conhecidos de então, os chamados “corpos errantes” ou planetas, pois não
seguiam os mesmos caminhos das estrelas: eram “errantes”. Podiam ser vistos a
“olho nu” - sem a necessidade de telescópios - estes também poderiam ser
citados aqui, mas nosso principal objetivo é demonstrar a passagem do mito à
filosofia e portanto só mencionamos aqueles anteriores, como dissemos, para
ilustrar um pouco a importância, relevância e a conexão com a natureza que esses
povos tinham já há muitíssimo tempo.
Cherman (2000) comenta no seu livro - Cosmo-o-quê? Uma introdução a Cosmologia,
no capítulo intitulado – Cosmogonia - que há uma diferença substancial entre a
Cosmologia e a Cosmogonia e que “qualquer tentativa de explicar o Universo sem
a utilização das leis físicas que o regem será, aqui, denominada de teoria
cosmogônica.” (p.14).
Assim entendemos que para as diversas perguntas da humanidade sempre se
tentaram respostas por diversos caminhos antes dos científicos.
Os gregos, diz Cherman, foram os que mais contribuíram para as teorias
cosmogônicas:
Nenhuma cultura contribuiu mais para as teorias cosmogônicas do que a da
península do Peloponeso. Os gregos, ainda que afeitos às suas divindades,
inauguraram um novo jeito de pensar o Universo. É verdade que ainda cantavam os
feitos de Zeus (que seria Júpiter para os romanos), filho de Cronos, o titã que
representava o tempo, neto de Uranus, a própria abóbada celeste, mas já
ensaiavam um pensamento crítico que lhes permitia examinar a natureza com olhos
de cientistas. (p.21).
A filosofia
Tales, da colônia grega de Mileto – por isso chamado Tales de Mileto - é um dos
nomes mais importantes para o surgimento do pensamento filosófico-científico,
como é dado por “Aristóteles, no livro I da Metafísica”, e nos relembra
Marcondes (2005). “Aristóteles afirma ser Tales de Mileto, no Séc. VI a.C., o
iniciador do pensamento filosófico-científico”. Marcondes continua:
Podemos considerar que este pensamento nasce basicamente de uma insatisfação
com o tipo de explicação do real que encontramos no pensamento mítico. De fato,
desse ponto de vista, o pensamento mítico tem uma característica até certo
ponto paradoxal. Se, por um lado, pretende fornecer uma explicação da
realidade, por outro lado, recorre nessa explicação ao mistério e ao
sobrenatural, ou seja, exatamente àquilo que não se pode explicar, que não se
pode compreender por estar fora do plano da compreensão humana. A explicação
dada pelo pensamento mítico esbarra assim no inexplicável, na impossibilidade
do conhecimento. (p.21).
É assim desta maneira que surge a filosofia, pelo questionamento dos homens que
queriam e buscavam a verdade, mas não queriam explicações incoerentes, assim
começam um processo de pensamento diferenciado e racional que pudesse
contrapor-se, de certa maneira, às tradições, como comenta Chaui (2005)
A filosofia surgiu quando alguns gregos, admirados e espantados com a
realidade, insatisfeitos com as explicações que a tradição lhes dera, começaram
a fazer perguntas e buscar respostas para elas, demonstrando que o mundo e os
seres humanos, os acontecimentos naturais e as coisas da natureza, os
acontecimentos humanos e as ações dos seres humanos podem ser conhecidos pela
razão humana, e que a própria razão é capaz de conhecer-se a si mesma. (p.25).
Alguns fatores foram importantes para o surgimento da filosofia. Ela nasce em
condições históricas que a favorecem, no final do século VII e início do século
VI a.C.
São elas como menciona Chaui (2005, p.37.): as viagens marítimas; a invenção do
calendário; a invenção da moeda; o surgimento da vida urbana; a invenção da
escrita alfabética e a invenção da política.
As viagens marítimas demonstraram aos
gregos que os locais que os mitos diziam habitados por deuses e os mares
habitados por monstros, não possuíam monstros nem eram aqueles locais,
habitados por deuses. Assim as viagens produzem um desencanto ou a
desmistificação do mundo.Ø
A invenção do calendário demonstra e faz
perceber que a noção do tempo é algo natural (os fatos se repetem) e não uma
força divina incompreensível.Ø
A invenção da moeda propicia um
pensamento abstrato e de generalização, onde se nota os valores de troca de
maneira simbólica e não mais como a permuta de mercadorias de outrora.Ø
O surgimento da vida urbana e a
valorização de uma nova classe de comerciantes ricos que procurava o prestígio
pelo patrocínio e estímulo às artes, às técnicas e aos conhecimentos,
favorecendo um ambiente filosófico. Isto em contraponto com a aristocracia
proprietária de terras, por quem e para quem os mitos foram criados.Ø
A invenção da escrita alfabética
propiciando da mesma forma que o calendário e a moeda o crescimento da
capacidade de abstração e de generalização.Ø
A invenção da política que da origem a
três aspectos novos para o nascimento da filosofia:Ø
1. a idéia da lei como vontade de um povo que decide por si mesmo o que é
melhor para si.
2. o surgimento de um espaço público para discutir através de um novo tipo de
palavra ou de discurso, diferente daquele mítico.
3. um pensamento que todos podem compreender e discutir. Todos podem comunicar
e transmitir.
Praticamente todos os filósofos antes de Sócrates (séc. VI – V a.C.), por isto
chamados de – pré-socráticos - tiveram como características do pensamento
noções que tentam explicar a realidade da natureza. Como dissemos, aí a
filosofia e a ciência tem seu inicio... Vejamos quais foram estas noções,
mencionadas por Marcondes (2005, p.24-27), que as transcrevo de maneira
reduzida:
a. A physis
Por os primeiros filósofos serem estudiosos ou teóricos da natureza (physis),
portanto o objeto de investigação destes filósofos-cientistas era o mundo
natural. Eles buscavam explicação através desta mesma realidade e não fora
dela, ou seja, investigavam a própria natureza.
b. A causalidade
Procuravam explicar, relacionando um efeito a uma causa que antecedia outra.
Tomavam um fenômeno como efeito de uma causa. O nexo deve ser dado entre os
fenômenos naturais, e não através de causas sobrenaturais, é isto que distingue
o discurso mítico do filosófico-científico. Mas há um problema! A explicação
causal pode ir ao infinito em caráter regressivo, desta forma chegaríamos a um
momento inexplicável, a um mistério. Assim acabaríamos novamente no mito. Para
isso não ocorrer se estabelece uma causa primeira, um ponto de partida para o
processo racional a arqué.
c. A Arqué (elemento primordial)
Para se evitar o infinito causal, postula-se o elemento primordial. Tales de
Mileto, o primeiro a postular essa noção, diz ser a água (hydor) o elemento
primordial. A água como o elemento presente em todas as coisas. Outros
sucessores de Tales, Anaxímenes e Anaximandro, adotaram o ar e o apeiron (algo
ilimitado, indefinido, subjacente à própria natureza); Heráclito dizia ser o fogo;
Demócrito o átomo e assim outros como Empédocles que dizia ser: terra, água, ar
e fogo. A química hoje supõe que o hidrogênio, esteja presente em todo o
universo. Estes filósofos buscavam um principio básico permeando toda a
realidade, um elemento natural, inaugurando a ciência.
d. O cosmo
O termo kosmos, para eles, liga-se às idéias de ordem, harmonia e mesmo beleza
(já que a beleza resulta da harmonia das formas; daí o termo “cosmético”). O
cosmo é assim o mundo natural, o espaço celeste enquanto realidade ordenada de
acordo com princípios racionais. O cosmo entendido assim como ordem se opõe ao
caos, que seria a falta de ordem, o estado da matéria antes de sua organização.
Esta ordem do cosmo é racional, “razão” significando aí leis que regem e organizam
esta realidade. (mais à frente completo esta noção – o cosmo)
e. O logos
O termo logos significa literalmente discurso, mas de forma diferente do
discurso do mythos. O logos é uma explicação, em que razões são dadas. Por isto
que os discursos dos primeiros filósofos explicando o real por causas naturais
é um logos. É portanto um discurso racional, justificativo e estão sujeitos à
crítica. Um dos pressupostos básicos é a correspondência entre a razão humana e
a racionalidade do real.
f. O caráter crítico
Uma das características mais interessantes destas escolas de pensamento era que
elas eram passíveis de questionamento, não eram dogmas nem eram apresentadas
como verdades absolutas. Eram portanto suscetíveis às divergências e
discordâncias e permitiam formulações e propostas alternativas. Não eram
verdades reveladas, de caráter divino ou sobrenatural, por isso estavam abertas
às discussões, aos reparos, às criticas. A única exigência era que as novas
propostas fossem explicadas racionalmente, justificadas e novamente submetidas
às críticas.
A Cosmologia e a Astronomia
Por isso, tivemos assim, no que tange a Astronomia, um grande passo para o que
viria a ser a Cosmologia – diferentemente da cosmogonia – que não é uma
ciência; aquela já é uma ciência, pois a estudamos com teorias e observações,
estamos procurando causalidades lógicas, ordem e organização, pautamo-nos na
matemática. Estamos abertos às críticas, justificadas. Conforme mencionamos,
entre as características do pensamento filosófico-científico, estão a Physis, a
causalidade, a arqué (elemento primordial), o cosmo, o logos e o caráter
crítico. Agora gostaria de citar o que Marcondes (2005) diz sobre o uso deste
racionalismo em conexão com este real que é o cosmos:
É a racionalidade deste mundo que o torna compreensível, por sua vez, ao
entendimento humano. É porque há na concepção grega o pressuposto de uma
correspondência entre a razão humana e a racionalidade do real – o cosmo – que
este real pode ser compreendido, pode-se fazer ciência, isto é, pode-se tentar
explicá-lo teoricamente. Daí se origina o termo “cosmologia”, como explicação
dos processos e fenômenos naturais e como teoria geral sobre a natureza e o
funcionamento do universo. (p.26).
Eudoxo, século IV a.C, deixa um legado que será relembrado nos textos de
Aristóteles (c. 350 a.C) e Simplício (c. 500 d.C). Ele se preocupava com a
Cosmologia do presente, queria explicar o movimento planetário. Para isso criou
esferas dentro de esferas que giravam em relação umas às outras, preconizando o
que seriam os epiciclos pré-copernicanos. Aristóteles vem e coloca a terra no
centro deste sistema – é o geocentrismo – que seria desqualificado, bem mais
tarde, cerca de vinte séculos depois, por Copérnico (1473-1543), com a teoria
do heliocentrismo (o sol no centro do universo). Embora não tenha sido uma
idéia totalmente original de Copérnico que a busca lá nas múltiplas hipóteses
cosmogônicas que se fizeram até então, foi na hipótese de Aristarco de Samos
que Copérnico se baseia. Copérnico parte desta hipótese, e isto dará um grande
ponto de partida para a astronomia moderna.
Aristarco (c.310-230 a.C) , astrônomo grego, se assim podemos chamá-lo, formula
a hipótese de que o sol se encontrava no centro do nosso universo. Ele era uma
exceção ao pensamento geocêntrico de então. Mas como explicar que a terra
estando em movimento, ainda assim as estrelas pareciam fixas no céu quando as
observávamos (aqui desta Terra móvel) ? Aristarco postula que a distância entre
a terra e as estrelas era muito maior que a distância da terra ao sol, assim o
raio da órbita da Terra poderia ser considerado nulo em comparação à enorme
distância que nos separa das estrelas. Aristarco fez também boas estimativas
das distâncias entre a Terra e o Sol e entre a Terra e a Lua. Conforme
comentado por Cherman (2004, p.25).
Antes destes astrônomos porém, já tínhamos outros grandes pensadores, como nos
relembra Cherman (2000) , alguns deles já comentamos aqui neste trabalho: “no
século VI a.C.: Tales, Anaximandro, Anaxímenes e Pitágoras.” Queremos destacar
agora Pitágoras que afirmava, conforme lembra este autor, que: “a criação do
Universo se dava através dos números, esboçando a importância que a Matemática
viria a ter nas modernas teorias cosmológicas.” (p.23).
Certamente Pitágoras não poderia imaginar o quão longe a astronomia poderia
chegar através da utilização da matemática como ferramental. Pitágoras, como
sabemos, nos deixou heranças não só pela própria matemática, mas também, como
menciona Marcondes (2005) pela “doutrina segundo a qual o número é o elemento
básico explicativo da realidade, podendo-se constatar uma proporção em todo o
cosmo, o que explicaria a harmonia do real garantindo o seu equilíbrio”.
(p.33).
Pitágoras mencionava também a harmonia da música, com relação ao cosmos e uma
proporção ideal em todo o universo. Foi daí que Johannes Kepler, na idade
moderna busca uma "harmonia do mundo", como relembra Marcelo Gleiser
no seu romance de mesmo nome. Kepler suspeitou que os planetas apresentavam
órbitas elípticas (e não circulares, como acreditava Copérnico). E para
confirmar isto se utilizou da matemática e das observações e anotações das
posições planetárias feitas por Tycho Brahe. Vemos assim que a cosmologia,
agora de forma observacional, empírica e matemática distancia-se totalmente da
antiga cosmogonia, mas é bom lembrar que ainda na idade moderna a astrologia
era confundida com a astronomia.
Também, podemos elucidar, como relembra Chaui (2005) que foi “graças aos
primeiros filósofos gregos e à idéia que a natureza é uma ordem que segue leis
universais e necessárias que”:
No início do século XVII, Galileu Galilei deu novo impulso à física ao estudar
o movimento dos graves ou “pesados” (ou a estabelecer as leis da queda dos
corpos) e, para isso, a demonstrar as leis naturais do movimento uniforme e do
movimento uniformemente variado. ... Isaac Newton, no final daquele mesmo
século, a estabelecer as leis matemáticas da física, a demonstrar as três leis
do movimento e a chamada “lei da gravitação universal”, que, como o nome
indica, é válida para todos os corpos naturais. ... E, no século XX, levou
Albert Einstein a estabelecer uma lei válida para toda a matéria e energia do
universo, lei que se exprime na fórmula E=mc2. (p.20).
Estes são exemplos de alguns legados deixados pelo pensamento grego filosófico-
científico-astronômico, e que sem dúvida vieram a revolucionar o pensamento
moderno e contemporâneo.
Considerações finais
Como vimos os pré-socráticos foram de vital importância para a cosmologia e a
astronomia. Mas não só para estas - como também para o pensamento filosófico em
geral - tanto que estão sendo retomados por alguns autores contemporâneos e
portanto não nos deixam dúvidas da “autoridade” que eles tiveram e da
relevância na passagem do mito à filosofia e quem sabe, mais especificamente
ainda, não seriam na verdade um bom exemplo de qualificação e bom senso entre a
super valorização da ciência moderna racionalista e uma adequação ao mito ou
uma coerência entre Dionísio e Apollo (?), como nos diz Nietzsche, relembrado
por Chaui (2002, p.27) “A filosofia, para Nietzsche, começa e termina com os
filósofos pré-socráticos, isto é, com todos os filósofos que fizeram da
dualidade entre o dionisíaco e o apolíneo o núcleo da própria natureza e da
realidade.” E ele conclui dizendo que depois de Sócrates acaba a filosofia e
entra o racionalismo.
Notamos hoje uma super valorização da razão e do racionalismo, que muitas vezes
de forma exagerada, é representado por Apolo, e colocado em detrimento da
emoção, da embriaguez e de tudo o mais que representaria o deus Dionísio. Mas
parece que isto já está, de alguma forma, se revertendo.
Outra coisa que não poderíamos deixar de destacar é que o mito que outrora foi
sendo afastado das “entranhas” da população, de uma forma ou de outra, coexiste
até hoje consciente ou inconscientemente neste mesmo povo, e que não queremos
aqui julgá-lo, mas podemos afirmar, por acreditarmos, que um pouco de mito não
faz tão mal assim à sociedade, e que se com ele é ruim, sem ele poderia ser
pior.
Imaginemos a vida de bilhões de pessoas neste planetinha tão irrisório deste
sistema solar, entre tantos outros bilhões, desta nossa galáxia chamada Via
Láctea, entre tantas e tantas outras bilhões de Galáxias inimagináveis deste
universo; se este povo se afastasse totalmente de qualquer “mito”, na verdade
acredito que seria paradoxal, quem somos nós para julgarmo-nos “sabedores” de
todos os conhecimentos ou pior ainda da verdade?
